Introdução

      A lógica surgiu com os Gregos e desde então ela se tornou um instrumento para todos os empreendimentos humanos. Com a lógica o homem construiu as bases da civilização ocidental.  O estado logicamente organizado como uma entidade política, com uma constituição logicamente redigida, um direito logicamente ordenado, uma administração guiada por regras lógicas é uma característica da civilização ocidental. O pensamento lógico  subjetivo se fundamenta na realidade objetiva e se manifesta em todas as esferas da vida social,  no aparelho técnico-produtivo e científico, na escola e na mídia, no estado e em suas instituições. A lógica ofereceu à civilização ocidental o esquema de ordem e progresso.

     A palavra lógica vem do grego Logos e significa razão, pensamento. O pai da lógica é o filósofo Aristóteles, ele chamou sua lógica de “silogismo”, que significa ligação. Ele deu esse nome porque a lógica trata da ligação formal dos juízos feito pelo pensamento. Seus textos sobre lógica foram escritos em sua obra  “Primeiros Analíticos”. O silogismo é uma forma de análise que procura decompor em partes os argumentos e as proposições de um argumento e seus termos. Mais tarde o conjunto de seus escritos silogísticos foi chamado de Organon, palavra grega que significa “instrumento”. A lógica, portanto, é um instrumento para se pensar corretamente.

       Para alguns pensadores a lógica não é apenas as leis do pensamento, mas as leis que governam o mundo.   O filósofo Austríaco Wittgentein sempre acreditou na existência de uma ordem a priori no mundo. Segundo ele, só podemos pensar e falar sobre o mundo, porque há algo em comum entre linguagem e mundo.   Ambas possuem uma estrutura lógica. A lógica possibilita a linguagem representar o mundo. O mundo é lógico. Ele expressa essa idéia de forma poética em seu livro “Investigações Filosóficas”

Há uma aureola à volta do pensamento. – A sua essência, a lógica,   representa uma ordem, de fato a ordem a priori do mundo, isto é, a ordem das possibilidades que têm que ser comuns ao mundo e ao pensamento. Mas parece que esta ordem tem que ser supremamente simples. É a ordem que precede toda experiência, que corre ao longo de toda experiência, à qual não se deve pegar nada do que é turvo e incerto na experiência. – Tem que ser do mais puro cristal. Mas este cristal não parece  ser uma abstração, mas algo de concreto, como a coisa mais dura que há, (Investigações, 97)

       A lógica classica de aristóteles é fundamentada na linguagem natural cotidiana. Já a lógica moderna é puramente simbólica tendo seu fundamento na linguagem matemática. Nosso objetivo é explicar tanto o silogismo aristotélico como a lógica simbólica moderna. Nós trataremos primeiro de explicar algumas noções propedêuticas da lógica, tais como características, os princípios, os conceitos e os tipos de argumentos. A partir daí trataremos do silogismo aristotélico. Ensinaremos também alguns métodos para decidir validade através dos diagramas de Venn e Carroll. Logo após dissertaremos sobre a relação entre mundo e pensamento na obra “Tractatus logico-philosophicus” de Wittgentein, para finalmente introduzir o leitor no  método da tabelas de verdade criado por este mesmo autor.

         O nosso objetivo é bastante singelo, queremos apenas ajudar o leitor a pensar corretamente e não ser enganado facilmente por argumentos falaciosos. Dedicaremos uma parte de nosso texto apenas a falacias. O leitor também deve aprender como criar argumentos logicamente válidos e  como analisar um discurso, descobrindo se os argumentos são válidos ou inválidos. Devemos lembrar que este site está em construção, ainda não foram colocados todos os textos por motivos de configuração. 

Publicado em:  on Novembro 30, 2007 at 1:35 am Comentários (3)

Características da lógica

Instrumental: a lógica é um instrumento do pensamento, ela é uma ferramenta para se pensar corretamente. Ela é um instrumento que usamos para saber se um raciocínio é logicamente válido ou não. Ela é também um instrumento para as várias ciências usarem, verificando a correção do que está sendo pensado e para proceder corretamente no raciocínio. 

Formal: A maior dificuldade do lógico é explicar  por que a lógica não depende dos objetos do nosso mundo, isto é, por que a lógica não depende dos conteúdos pensados ou dos objetos referidos pelo pensamento. Ela se preocupa apenas com a forma pura e geral dos pensamentos. Vamos tentar explicar com exemplos simples. Se p=q e q=r então é lógico que p=r. Nota-se que todos símbolos estão ligados, um implica o outro. A conclusão decorre necessariamente dos juízos anteriores. Agora vamos imaginar que p é banana, r é pêra, e q é maça. O argumento seria o seguinte, se  toda banana é maça e toda maça é pêra, então,  toda banana é pêra. Poderíamos fazer uma nova substituição e a forma do argumento estaria intacta.  Vamos substituir p por homem, q por vertebrado e r por animal. Nós teríamos o seguinte argumento: todo homem é vertebrado e todo vertebrado é um animal, portanto, todo homem é um animal. Percebam que eu usei apenas a forma do argumento para gerar vários argumentos. Como eu disse, a lógica é sempre formal, pois ela depende apenar da forma e não dos conteúdos. O encadeamento lógico dos juízos que compôem o argumento chama-se forma ou a consequência do argumento Aristóteles chamou sua lógica de lógica formal, pois ela tinha por objetivo estabelecer a forma correta das operações do pensamento. Se as regras forem aplicadas adequadamente, o raciocínio é considerado válido ou correto. Vou colocar os argumentos abaixo lado a lado para você comparar melhor,. Além disso, colocarei um diagrama para ficar mais claro o que é forma lógica. 

              P=Q                Toda banana é maça  

             Q = R               Toda maça é pêra 

             P = R                Logo, toda banana é pêra   

           

            Todo homem é vertebrado

            Todo vertebrado é um animal

            Logo, todo homem é um animal  

                       

                                [r{q(p)q}r]   

    
        Percebam no diagrama acima que p está contido em q e q está contido em r, então por uma necessidade lógica p está também contido em r. Essa é a forma do argumento. O encadeamento lógico dos juízos  se chama forma. Trata-se de um argumento lógico-dedutivo, pois um enunciado se deduz do outro, ambos estão ligados mutuamente. Lembremos que a lógica tem haver com ligação, mas os lógicos chamam este processo de encadeamento dos juízos de dedução.  

Normativa: A lógica define as condições de operação do pensamento. Segundo o grande filósofo Leibniz “as leis da lógica não são mais do que as regras do bom-senso colocadas em ordem e por escrito”. Ela fornece, portanto,  os princípios, leis, regras, normas do pensamento para todo racíocínio válido. 

Publicado em:  on Novembro 27, 2007 at 3:20 am Deixe um comentário

Princípios da lógica

      Foi Aristóteles que forneceu os princípios básicos da lógica, que são percebidos intuitivamente. Esses princípios são formais, pois não se referem aos objetos e nem aos conteúdos pensados, mas apenas dizem como devemos pensar. São as formas necessárias e universais do pensamento. Todos o seres humanos quando pensam seguem esses princípios. Eles são anteriores a qualquer raciocínio.  

Princípio da identidade: Afirma A=A e não pode ser B, o que é, é. Parece estranho, mas não podemos pensar nada sem sua identidade. Uma árvore é uma árvore e não pode ser um cachorro. O pensamento só pode admitir a representação de coisas que possuem sua identidade. O triângulo tem três partes, nunca poderá ter quatro. Todo ser da natureza seja uma árvore, um animal, um objeto, um ser humano só pode ser representado e percebido pelo pensamento com sua identidade.

 Princípio da não-contradição: A=A e nunca pode ser não-A, o que é, é e não pode ser sua negação, ou seja, o ser é, o não ser não é.  Uma árvore é uma árvore e não pode ser não-árvore. Ou é uma árvore ou não é. É impossível que o quadrado tenha quatro partes e não tenha ao mesmo tempo. Que o triângulo tenha três partes e não tenha ao mesmo tempo. Sem o princípio de não-contradição não há o princípio de identidade.  

Princípio do terceiro excluído: Afirma que Ou A é x ou A é y, não existe uma terceira possibilidade. “Ou este remédio cura a doença ou não cura a doença”; “Ou ele é bom, ou ele é mal”; “Ou este relógio funciona ou não funciona”; “Ou esta panela está quente ou  está fria”. Uma idéia, um objeto, um sentimento pode ser isto ou aquilo, não a uma terceira possibilidade, somente há duas escolhas.     

Publicado em:  on at 3:14 am Comentários (2)

Proposição e Premissa

       Todo argumento é feito de proposições e premissas. Proposição é o ato pelo qual o pensamento afirma ou nega algo. Ele comporta dois elementos: o sujeito, que é o ser de que se afirma ou nega alguma coisa e o predicado, é aquilo de que  se afirma ou nega do sujeito. Toda proposição surge da faculdade intelectual que compara e julga, essa faculdade afirma a conveniência de duas idéias ou não. Portanto, a proposição é a atribuição de um predicado a um sujeito: X é Y,  (Sócrates é mortal). Segundo  Irving Copi,  “costuma-se usar a palavra proposição para designar o significado de uma sentença  ou oração declarativa” (COPI, 1981, p.22).

        Por sua vez, premissa é a expressão verbal da proposição num argumento. As premissas são as evidências que servem como base para uma conclusão. Nem sempre uma proposição é uma premissa. Ela só o é quando faz parte de um argumento. Segundo Copi, “nenhuma proposição, tomada em si mesma, isoladamente, é uma premissa. Só é premissa quando ocorre como pressuposição num argumento ou raciocínio” (COPI, 1978, p. 23).  A proposição pode funcionar como premissa ou como conclusão. Logo, não podemos confundi-la com premissa.

Publicado em:  on at 3:04 am Comentários (3)

Inferência, raciocíno e argumento

       Inferência é o processo pela qual concluímos algo por meio de um raciocínio. De várias proposições nós inferimos uma conclusão. Inferir é, portanto, chegar a uma resposta a partir de juízos anteriores.  Por sua vez, o raciocínio é a operação pela qual o pensamento de duas ou mais relações conhecidas infere uma outra relação que desta decorre logicamente. O  raciocínio é, portanto, a ligação das proposições. Por exemplo:                             

             Todo metal conduz eletricidade   

             O ferro é um metal                              

             Logo, o ferro conduz eletricidade. 

         Nota-se que os juízos estão ligados logicamente formando um raciocínio. Da ligação dos dois primeiros juízos nós podemos inferir o terceiro que constitui a conclusão.

       O encadeamento lógico dos juízos compõe o argumento, sendo ele a expressão verbal do raciocínio. Segundo Copi, “um argumento é qualquer grupo de proposições tal que se afirme ser uma delas derivada das outras, as quais são consideradas provas evidentes da verdade da primeira”. Todo argumento tem uma estrutura, não é simplesmente uma coleção de proposições, mas deve possuir premissas como evidência e uma conclusão corroboradora. O argumento, portanto, é uma operação verbal do pensamento que consiste em encadear juízos e deles tirar uma conclusão.  
 

Publicado em:  on at 2:42 am Comentários (1)

Tipos de Argumentos

                Em lógica todo raciocínio tem por objetivo partir daquilo que conhecemos para chegar àquilo que ignoramos. Dessa forma, há dois casos para que isso aconteça, ou partimos de uma lei universal (dedução), ou partimos de vários casos singulares (indução). Tanto a dedução quanto à indução são operações do pensamento que consistem em tirar de duas ou mais proposições uma outra proposição que decorrem logicamente das anteriores.

Dedução    

       O argumento dedutivo é uma forma de raciocínio que geralmente parte de uma verdade universal e chega a uma verdade menos universal ou singular. Esta forma de raciocínio é válida quando suas premissas, sendo verdadeiras, fornecem provas evidentes para sua conclusão. Sua característica principal é a necessidade, uma vez que nós admitimos como verdadeira as premissas teremos que admitir a conclusão como verdadeira, pois a conclusão decorre necessariamente das premissas.  Dessa forma, o argumento deve ser considerado válido.       “Um raciocínio dedutivo é válido quando suas premissas, se verdadeiras, fornecem provas convincentes para sua conclusão, isto é, quando as premissas e a conclusão estão de tal modo relacionados que é absolutamente impossível as premissas serem verdadeiras se a conclusão tampouco for verdadeira” (COPI, 1978, p.35).     Note que em todos os argumentos dedutivos a conclusão já está contida nas premissas.

              1) Só há movimento no carro se houver combustível.

                 O carro está em movimento.

                 Logo, há combustível no carro.

              

              2) Tudo que tem vida é um ser vivo.

                  Logo, todo ser vivo tem que ter vida.           

              

              3) O som não se propaga no vácuo.

                  Logo, não há som no vácuo.

              

              4) Só há fogo se houver oxigênio

                  Na lua não há oxigênio.

                  Logo, na lua não pode haver fogo.

              

              5)  P=Q

                   Q=R

                   Logo, P=R 

         Geralmente os argumentos dedutivos são estéreis, uma vez que eles não apresentam nenhum conhecimento novo. Como dissemos, a conclusão já está contida nas premissas. A conclusão nunca vai além das premissas.  Mesmo  que a ciência não faça tanto uso da dedução em suas descobertas, exceto a matemática, ela continua sendo o modelo de rigor dentro da lógica.

Indução

     O argumento indutivo é uma forma de raciocínio que geralmente parte de enunciados singulares e infere-se um enunciado universal. Ao contrário do argumento dedutivo, o argumento indutivo vai além das premissas. Ele oferece novas informações que não estavam contidas na premissa. Por isso, ele é mais usado pelas ciências. São através dos argumentos indutivos que as ciências descobrem as leis gerais da natureza. O argumento indutivo geralmente parte de dados da experiência e desses dados chega a enunciados universais. Além disso, todas as conjecturas que a ciência faz têm por base a indução.  Com base em dados particulares do presente as ciências fazem as conjecturas do futuro.

     “Os argumentos indutivos, ao contrário do que sucede com os dedutivos, levam a conclusões cujo conteúdo excede os das premissas. E esse traço característico da indução que torna os argumentos indispensáveis para a fundamentação de uma significativa porção dos nossos conhecimentos” (SALMON, 1969, p. 76)

          O grande problema da indução é que ela é probabilística. Não há a necessidade como na dedução. Como vimos na dedução, a conclusão decorre necessariamente das premissas. Já na indução isso é impossível, uma vez que ela enumera casos particulares e por probabilidade ela infere uma verdade universal. A conclusão da indução tem apenas a probabilidade de ser verdadeira. Vou dar alguns exemplos.

              1) A sala 1 da escola foi pintada de verde.

                  As salas 2, 3, 4, 5, 6, também foram pintadas de verde.

                  Logo, todas as salas da escola foram pintadas de  verde.

           

              2) O ouro conduz eletricidade e é um metal.

                 O ferro, o zinco, o bronze, a prata também são metais e conduzem

                 eletricidade.

                 Logo, todo metal conduz eletricidade.

       Nota-se que a conclusão não decorre necessariamente das premissas. É uma probabilidade que a conclusão seja verdadeira. Do ponto de vista formal, o argumento é correto. Contudo, diferentemente da dedução, um argumento indutivo, sendo ele válido, pode admitir uma conclusão falsa, ainda que suas premissas sejam verdadeiras. Já quando as premissas de um argumento dedutivo e válido são verdadeiras, a sua conclusão deve ser verdadeira.

       A idéia básica é esta: na indução, contrariamente ao que sucede na dedução, não estamos certos de que a conclusão será sempre verdadeira, quando as premissas são verdadeiras; podemos, porém, fazer que a conclusão seja verdadeira o mais freqüentemente possível. (SALMON, 1969, p.77).      

       O raciocínio indutivo nunca terá a pretensão de que suas premissas forneçam provas evidentes para a verdade da conclusão. Ela só pode fornecer algumas provas disso.

       Os argumentos indutivos não são validos nem inválidos no sentido em que estes termos se aplicam aos argumentos dedutivos. Os raciocínios podem, é claro, ser avaliados como melhores ou piores, segundo o grau de verossimilhança ou probabilidade que as premissas confiram às respectivas conclusões. (COPI, 1978, p. 35).

       Um bom exemplo de indução nas ciências  são as prévias eleitorais. No último senso eleitoral feito com aproximadamente cinco mil eleitores por todo o Brasil,  o candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva era o favorito as eleições com quarenta e dois por cento dos votos (42%), seguido por vinte oito por cento (28%) de José Serra, dez por cento (10%) de Garotinho e cinco por cento de Luiza Helena (5%). Podemos inferir que este será o resultado das eleições presidenciais, cuja população é de duzentos milhões de eleitores. Lula seria, pela probabilidade, vencedor.

       

 

Publicado em:  on Novembro 26, 2007 at 1:36 am Comentários (2)

Verdade e Validade

          Verdade e falsidade só podem ser aplicadas a proposições, dizemos que uma proposição é verdadeira ou falsa e nunca que é válida ou inválida. Da mesma forma, dizemos que um argumento é válido ou inválido e nunca que o argumento é verdadeiro ou falso. Existem relações estreitas entre a validade e invalidade de um argumento e a verdade e falsidade de suas premissas, mas essa relação não é tão simples. Alguns argumentos válidos possuem premissas verdadeiras, como exemplo:          

          Todo homem é um bípede (v)           

          Todo bípede anda (v)                            arg. válido           

          Logo, todo homem anda. (v)      

       Mas há argumentos que podem conter proposições falsas, mas do ponto de vista formal o argumento é válido.            

             Todo homem é um quadrúpede (f)

             Todo quadrúpede é mulher (f)            Arg. válido

              Logo, todo homem é mulher (f)     

  Há argumentos que a primeira vista parecem inválidos, mas que na verdade são válidos. Do mesmo modo, há argumentos que parecem válidos, mas que na verdade são inválidos. Reparem nesses dois argumentos.               

                Todos os homens são jogadores. (f)              

               João é homem (v)                         Arg. válido        

               Logo, João é jogador (v/f)                       

        Veja este outro argumento.                     

                Todos os homens são mamíferos. (v) 

                 João é mamífero. (v)                   Arg. inválido

                 Logo, João é homem (v)

       O primeiro argumento, à primeira vista, parece ser inválido e o segundo parece ser válido. Contudo, ocorre exatamente o contrário. Embora a primeira proposição, “todos os homens são jogadores”, seja falsa, o raciocínio é formalmente lógico. Por sua vez, o segundo argumento que parece ser válido, pois todas as proposições são verdadeiras, na verdade ele é inválido. A verdade ou falsidade das premissas  não determina a validade ou invalidade de um argumento. Tampouco a validade de um argumento garante a verdade de sua conclusão. 

Publicado em:  on at 1:02 am Comentários (2)

Silogismo

O silogismo é um tipo de argumento composto de três proposições: duas premissas e uma conclusão.  Sua origem está ligada ao berço da civilização ocidental, a Grécia antiga com o pensamento do filósofo Aristóteles. Ele chamou sua obra de Primeiros Analíticos, isto porque o silogismo é uma forma de análise que procura decompor em partes os argumentos e as proposições de um argumento e seus termos. Mais tarde o conjunto de seus escritos silogísticos foi chamado de Organon, ou seja, “instrumento” para pensar corretamente.  Há quatro tipos de proposições que pode conter um silogismo:

A=Universal afirmativa: Todos os A’s são B.

E=Universal negativa: Nenhum A é B.

I=Particular afirmativa: Alguns A’s são B.

O=Particular negativa: Alguns A’s não são B.

É uma convenção entre os lógicos  designar essas proposições pelas letras A, E, I, e O  respectivamente. As letras provavelmente foram tiradas das palavras (latinas) affirmo” e “nego“.   Os lógicos da idade média criaram uma figura chamada “quadrado dos opostos” mostrando as possíveis relações entre as proposições.

A e O / E e I: Duas proposições são contraditórias se uma delas for a negação da outra, ou seja, se ambas não puderem ser verdadeiras e não puderem ser ambas falsas.

A e E: Duas proposições são contrárias quando ambas não podem ser verdadeiras, mas ambas podem ser falsas.
I e O: Duas proposições são subcontrárias se ambas não podem ser falsas.
A e I / E e O: Duas proposições são subalternas se ambas podem ser verdadeiras, mas com outras combinações subalternas são indeterminadas.

Uma vez que mostramos os tipos de proposições silogísticos e suas relações, vamos decompor um silogismo nas suas menores partes para mostrarmos as formas lógicas deste tipo de argumento. Mas para isso usaremos um exemplo clássico de Aristóteles.

Todo homem é mortal

Sócrates é homem

Logo, Sócrates é mortal.

A primeira proposição chamamos de premissa maior, a segunda proposição chamamos de premissa menor, a terceira proposição chamamos de conclusão. Essa é a forma básica do silogismo. Além disso, ele contém os seguintes termos: homem, animal e mortal. O termo que se repete na premissa maior e menor, que é o termo homem, chamamos de termo médio. Os outros dois termos do silogismo, animal e mortal,  chamamos de termos extremos. A função do termo médio é ligar os termos extremos permitindo chegar à conclusão. Portanto, o termo médio nunca se repete na conclusão.

Agora nós sabemos quais são as partes de um argumento silogístico. Com isso, podemos inferir quatro formas de combinação do termo médio. Vamos transformá-lo em símbolos.    Dado um par de termos extremos que é o sujeito da conclusão representado pela letra S e o predicado da conclusão representado pela letra P, há quatro combinações possíveis de termos médios representado pela letra M. Cada combinação nós chamamos de figura.

M – P P – M M – P P – M
S – M S – M M – S M – S
S – P S – P S – P S – P
(1) (2) (3) (4)

O termo médio (M) pode aparecer como sujeito em ambas as premissas, pode aparecer como predicado em ambas as premissas, pode aparecer como sujeito na premissa maior e predicado na premissa menor, ou pode aparecer como predicado na premissa maior e sujeito na premissa menor.  Para ficar mais claro as quatro figuras, vamos fazer quatro argumentos correspondentes a cada figura

A primeira figura o termo médio é representado como sujeito na premissa maior e como predicado na premissa menor.

Todo filosofo é vaidoso.

Nietzsche é filósofo.

Logo, Nietzsche é vaidoso.

A segunda figura o termo médio é representado como predicado nas premissas maior e menor.

Todo administrador é inteligente

Todas as mulheres são inteligentes

Logo, algumas mulheres são administradoras.

A terceira figura o termo médio é representado nas premissas maior e menor como sujeito.

Alguns idealistas são marxista

Alguns idealistas são sociólogos.

Logo, alguns sociólogos são marxistas.

A quarta figura o termo médio é representado como predicado na premissa maior e como sujeito na premissa menor.

Todo  árbitro é indivíduo desonesto.

Nenhum  indivíduo desonesto é rico.

Logo, nehum  árbitros é rico.

Nós vimos até agora os quatro tipos de proposição: A, E, I, O, juntamente com os quatro modos de combinação do termo médio dentro de um argumento. Se combinássemos os quatro tipos de proposição com cada figura teríamos 64 tipos de argumento: AAA, AAE, AAI, AAO, AEA, AEE, AEI, AEO, AIA, AIE, AII, AIO, AOA, AOE, AOI, AOO, (…).  São dezesseis tipos de argumentos somente na primeira figura, como são quatro figuras, multiplicamos dezesseis por quatro que perfazem sessenta e quatro argumentos (16X4= 64). São sessenta e quatro argumentos  que começam  com a proposição  universal afirmativa. Mas como são quatro tipos de proposições, multiplicamos sessenta e quatro por quatro, teremos duzentos e cinqüenta e seis tipos de formas de argumentos silogísticos. Vou dar um exemplo. Seu eu quero um argumento do tipo AAA na primeira figura, então ele teria a seguinte forma:

M-P          Todo homem é mamífero.

S-M          Toda criança é homem.

S-P            Logo, toda criança é mamífero.

Notem que todas as proposições, sejam na premissa maior ou menor, começam com proposições universais afirmativa, ou seja, do tipo AAA. Vamos supor que eu queira um argumento do tipo AEO na segunda figura.

P-M           Todo chipanzé possui memória

S-M            Nenhum macaco possui memória

S-P              Logo, alguns macacos não são chipanzés

Notem que a primeira proposição é universal afirmativa do tipo A, a segunda proposição é universal negativa do tipo E, a última proposição, a conclusão, é particular negativa do tipo O. Vamos supor que eu queira um argumento do tipo EEE na figura quatro.

P-M            Nenhum ser vivo é um ser inorgânico

M-S             Nenhum ser inorgânico é extraterrestre

S-P              Logo, nenhum extraterrestre é um ser vivo

Publicado em:  on at 12:45 am Comentários (8)

Tabelas de verdade

       A linguagem usada pelo silogismo é a linguagem natural que acarreta muitos problemas para sua análise, como seu caráter coloquial, metafórico, emotivo que se lhes possam atribuir. Além disso, há argumentos que não podem ser analisados com os diagramas de Venn e carroll, não podemos saber sobre sua validade ou invalidade. Dessa forma, a lógica simbólica foi criada para superar as dificuldades da língua natural. A lógica moderna é puro simbolismo do tipo matemático, preocupando-se cada vez menos com o conteúdo material das proposições e com as operações intelectuais ou estruturas do pensamento. A lógica tornou-se plenamente formal. O seu precursor foi Frege no final do século XIX e desenvolvido posteriormente no século XX por Whitehead, Bertrand Russel e Wittgenstein. Neste capítulo nós usaremos o método criado por Wittgenstein, que é o mais moderno e mais aceito pelos lógicos.A linguagem simbólica criada por Wittgenstein usa um sistema fechado de signos ou símbolos, onde cada símbolo é símbolo de um único objeto ou coisa a ser representada e corresponde a uma única significação. Todo símbolo deve indicar um objeto ou algo que pode ser verificado. Por exemplo, H²O, CO². são símbolos denotativos, pois indicam um só objeto ou um só sentido.

        Para caracterizar a ciência em oposição à filosofia, Wittgentein mostrou que as proposições da filosofia não são significativas, são pseudo-proposições. Enunciados só são significativos se, e somente se, eles podem ser reduzidos a proposições elementares ou atômicas. Um enunciado significativo deve descrever fatos atômicos, ou seja, fatos que podem ser “observados” e “verificados” na experiência. Uma proposição elementar ou atômica é a figuração de um fato elementar ou atômico na realidade, isto é, de estados de coisas atômicos. As proposições elementares ou atômicas são descrições ou “afigurações da realidade”. São um quadro, um retrato da realidade. Por exemplo, as sentenças:

Platão é um bípede sem pena

João é gordo e careca

Oxigênio produz combusta.

       Essas proposições são juízos de percepção que descrevem a realidade. Com efeito, são proposições que podem ser reduzidas a proposições elementares da lógica formal. A lógica torna-se a linguagem ideal para todas as ciências. Podemos substituir as proposições acima por símbolos, tais como p٨q – lemos p e q - Platão é um bípede sem penas; Oxigênio produz combustão (p→q), lemos p implica q. A linguagem cientifica deve ser substituída por uma linguagem simbólica, eliminando assim os erros da linguagem comum. Ela é um instrumento de análise que busca determinar as proposições significativas, como as inferências legítimas de toda as ciências. Para Wittgentein, somente a proposição é dotada de sentido e significado, nomes isolados apenas denotam o objeto, não possuem sentido. A proposição é uma figuração de fatos e não de coisas isoladas. O mundo não é a totalidade das coisas, mas a totalidade dos fatos.

 O mundo é totalidade dos fatos, não das coisas. (Tract.,1.1).

 O mundo decompõe-se em fatos (Tract.,1.2)

     Para Wittgentein, “a proposição é uma imagem da realidade. A proposição é um modelo da realidade tal como nós a pensamos” (Tract., 4.01). Quando digo: a porta está aberta, faço um recorte da realidade, faço uma figuração de um fato. Assim, este enunciado só pode ter dois valores de verdade: é verdadeiro ou é falso. Se corresponder à realidade ele é verdadeiro, se não corresponder é falso. Cada elemento que compõe a realidade deve ter uma correspondência no domínio da proposição. Os nomes que representam o objeto se combinam para formar a proposição, com efeito, representam os “estados de coisas”. A proposição é uma imagem da realidade: se eu compreendo a proposição, então conheço a situação por ela representada. E compreendo a proposição sem que o seu sentido me tenha sido explicado (Tract. 4.021) O que há de comum entre a proposição e a realidade é a forma dos objetos, isto é, a forma lógica. Devemos entender essa forma como uma determinada possibilidade de combinação dos objetos entre si. É a forma lógica que estabelece a conexão necessária entre as proposições e os fatos. O que cada figuração, de forma qualquer, deve sempre ter em comum com a realidade para poder figurá-lo em geral – correta ou falsamente – é a forma lógica, isto é, a forma da realidade. (Tract. 2.18).

       Wittgentein sempre acreditou na existência de uma ordem a priori no mundo, assim como no pensamento. Devemos lembrar que a linguagem é a expressão do pensamento. Só podemos pensar e falar sobre o mundo, porque há algo em comum entre linguagem e mundo. Ambas possuem uma estrutura lógica. A lógica possibilita a linguagem representar o mundo. O mundo é lógico.

Há uma aureola à volta do pensamento. – A sua essência, a lógica, representa uma ordem, de fato a ordem a priori do mundo, isto é, a ordem das possibilidades que têm que ser comuns ao mundo e ao pensamento. Mas parece que esta ordem tem que ser supremamente simples. É a ordem que precede toda experiência, que corre ao longo de toda experiência, à qual não se deve pegar nada do que é turvo e incerto na experiência. – Tem que ser do mais puro cristal. Mas este cristal não parece ser uma abstração, mas algo de concreto, como a coisa mais dura que há, (…) (Investigações, 97)

       Para ficar mais claro esta idéia, daremos um exemplo ilustrativo. Imaginem que estivéssemos em Limeira, mas não sabemos como chegar em São Carlos. A primeira atitude a tomar é olhar um mapa. No mapa, percebemos que para chegar em São Carlos teremos que pegar a rodovia Washington Luiz, passar por Rio Claro, até, finalmente, chegarmos em São Carlos.

· São Carlos

·Rio Claro

· Limeira

       Este diagrama é uma representação que nos mostra as posições relativas das cidades na Rodovia Washington Luiz. Nota-se que a cidade de Rio Claro fica entre Limeira e São Carlos. Temos aqui uma representação que pode ser verdadeira ou falsa. O diagrama me diz que entre as cidades nomeadas existe a mesma articulação espacial que existe entre os nomes. A rodovia Washignton Luiz, que é representado por uma linha, liga os nomes das cidades numa relação espacial. A mesma relação espacial que existe entre as cidades é figurada no mapa. O mapa poderia ser falso. Essa relação poderia não existir, mas o mapa não deixaria de ser significativo. É isso que Wittgentein chama a forma da afiguração, ou seja, é o que há de comum entre a representação e o representado. O que há de comum, portanto, entre o mapa e a realidade, é a forma lógica. A concatenação dos elementos da representação é a mesma concatenação que existe na realidade. Decorre disso, que o mundo possui um espaço lógico que se reflete na linguagem. A linguagem torna-se, portanto, o espelho do mundo.

       Tudo o que ocorre no mundo pode ser expresso pela linguagem. A linguagem é o retrato de tudo o que ocorre e de tudo que não ocorre. Através da estrutura lógica da linguagem, podemos compreender a estrutura lógica do mundo. Compreender o sentido de uma proposição é saber como devemos chegar a uma decisão sobre sua verdade ou falsidade. Devemos mostrar se ela é suscetível de ser verificada por uma evidência do tipo observacional. Uma proposição é significativa se ela “espelha os fatos”, isto é, se ela pode ser verificada na experiência ou se ela é uma conseqüência lógica de proposições de observação.

A verificabilidade completa, aqui exigida, de forma alguma é a verificação completa, mas a possibilidade lógica de um conjunto de dados verificadores concludentes, formulados em proposições de observação. Isto significa que proposições referentes a regiões inacessíveis do espaço e do tempo, por exemplo, podem muito bem ser completamente verificáveis. (Châtelet, 1974, p.81).

       Para Wittgestein uma teoria somente é significativa se ela mantêm uma relação intrínseca com a realidade, ou seja, se as proposições da teoria possuem uma significação empírica. Contudo, a realidade não é apenas aquilo que vemos, sentimos ou podemos ter a experiência. A realidade se constitui pela soma dos estados de coisas subsistentes, isto é, dos fatos e dos estados de coisas possíveis, ou seja, daqueles que não subsistem, mas podem vir a existir.

A subsistência e a não subsistência dos estados de coisas é a realidade (Chamamos de fato positivo a subsistência de estados de coisas e de negativo a não subsistência deles), (Tractatus. 2.06).

A totalidade dos fatos determina, pois, o que ocorre e também tudo o que não ocorre. (Tractatus, 1.12).

Os compromissos que governam a ciência normal especificam não apenas as espécies de entidades que o universo contém, mas também, implicitamente, aquelas que não contém. (Kuhn, 1991, p. 26).

       Uma vez que aprendemos algumas noções propedêuticas da lógica de Wittgenstein, vamos agora ao simbolismo.

→ “implica” ou “se…então”

٧ “ou”

٨ “e”

↔ “equivalente” ou “se e somente se”

.˚. “portanto” ou “logo”

a,b, p, q, r, s “proposições atômicas”

p ٨ q; p ٧ q; p → q; p ↔ q . “proposições moleculares”

       Os símbolos nos permitem transformar um argumento da linguagem coloquial em um argumento lógico matemático. Por exemplo:

Só há combustão se houver oxigênio

Na lua não há oxigênio.

Logo, na lua não pode haver combustão.

O argumento teria a seguinte forma: p=combustão q=oxigênio

p → q              Só há combustão se houver oxigênio

>q                    não há oxigênio

.º. >p                não há combustão

       Vamos dar mais um exemplo: p=José tem uma blusa branca; q=José tem uma blusa preta

José tem uma blusa branca ou José tem uma blusa preta

José não tem uma blusa branca

Portanto, José tem uma blusa preta

p v q

>p

.º. q

       Nós apresentamos aqui um argumento de implicação e outro de disjunção. Mas para sabermos se esses argumentos são válidos ou inválidos devemos recorrer as tabelas de verdade. Como já foi mostrado, se admitimos como verdadeiras as premissas de um argumento, também, por uma necessidade lógica, devemos admitir a conclusão como verdadeira. Esse argumento torna mais clara essa idéia: 10>9, 9>7, portanto, 10>7. Se admitirmos que as premissas são verdadeiras, a conclusão também deve ser verdadeira, ela decorre necessariamente das premissas. O objetivo das tabelas de verdade é mostrar todas as ocorrências dos valores de verdade em um argumento, com isso, nos permitir averiguar se existe pelo menos uma atribuição de valores de verdade que torna as premissas verdadeiras e a conclusão falsa. Se houver tal atribuição, o argumento é inválido; se não houver, o argumento é válido. Parece confuso, mas os exemplos devem tornar mais claros a finalidade das tabelas de verdade. Dado quaisquer enunciados p e q, só existem quatro conjuntos de valores de verdade que lhes possamos atribuir.

Se p é verdadeiro e q é verdadeiro

Se p é verdadeiro e q é falso,

Se p é falso e q é verdadeiro,

Se p é falso e q é falso,

      

               p                  q
               V                  V
               V                  F
               F                  V
               F                  F

      Nós apresentamos os possíveis valores de verdade para p e q, nós também podemos negá-los usando o sinal de “>” (chamamos negação). Quando p e q são verdadeiro, >p e >q são falsos, da mesma forma quando p e q são falsos >p e >q são verdadeiros.

               p                  q >p            >q
               V                  V  F              F
               V                  F  F              V 
               F                  V  V              F   
               F                  F  V              V 

       Agora vamos aprender os valores de verdade dos quatro conectivos lógicos.

                Se p é verdadeiro e q é verdadeiro, p ^ q é verdadeiro         

                Se p é verdadeiro e q é falso, p ^ q  é falso

                Se p é falso e q é verdadeiro, p ^q, é falso

                Se p é falso e q  é falso, p ^q é falso

               p                  q   p ^ q
               V                  V      V
               V                  F      F
               F                  V      F
               F                  F      F

       Nós temos até agora o conjunto de valores de verdade da conjunção. A partir daqui nós já podemos desenvolver um pequeno argumento e saber se ele é inválido ou não.

                O Brasil foi campeão em 2002

                Portanto, a Itália será campeã em 2006

       Será que há uma relação causal entre essas duas proposições? O fato do Brasil ser campeão em 2002 torna possível a Itália ser campeã em 2006. Nós mostraremos através de uma tabela de verdade que este argumento é inválido.

               p                  q
               V                  V
               V                  F   *  
               F                  V
               F                  F

       Este argumento é inválido, pois ele vai contra a nossa definição de argumento válido. Um argumento é válido se, e somente se, é impossível que suas premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Nota-se que na segunda linha a premissa é verdadeira e a conclusão falsa, esse argumento é, portanto, inválido. Vamos fazer mais um argumento para tornar mais clara a finalidade das tabelas de verdade.
 João é careca e usa peruca          p ^ q
João é careca                               p
Portanto, João não usa peruca  .°. > q

                                        

        Parece obvio que este argumento é inválido, uma vez que, se João é careca e usa peruca, então, decorre necessariamente disso que,  se ele não é careca, ele também não usa peruca. Mas a nossa conclusão diz exatamente o contrário, ou seja, que João não usa peruca, apesar de ser careca.   Vamos analisar pelas tabelas de verdade. A primeira coisa a fazer é estabelecer os quatro valores de verdade de p e q, depois os valores do conectivo de conjunção  (p^q), que será nossa primeira premissa do argumento,  logo após devemos apenar copiar os valores de verdade da proposição atômica p, que será a segunda premissa e, por último, devemos negar os valores de verdade da proposição atômica q, que será nossa conclusão.

Valores premissa premissa conclusão
 p       q      p ^ q         p           >q
 V       V        V         V            F   *
 V        F        F         V            V
 F        V        F         F            F
 F        F        F         F            V

       Nós finalmente montamos a matriz do argumento. Ele é inválido, pois na primeira linha ele torna as premissas verdadeiras e a conclusão falsa. Todo argumento só é inválido se é possível que suas premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa.  Essa definição deve ficar bem clara na mente do leitor. Ela que deve nos guiar para sabemos se um argumento é válido ou inválido através do uso de tabelas de verdade.  Por exemplo, se eu admitir como verdadeira as premissas, eu também tenho que admitir a conclusão como verdadeira. Se eu admitir que todo homem é mortal e que Sócrates é homem, eu também tenho que admitir, baseando-se nas premissas, que Sócrates é mortal. A conclusão decorre necessariamente das premissas.  Por isso que as tabelas nos servem para identificar os argumentos inválidos. 

       Vamos agora construir um novo argumento, mas usando um novo conectivo. Nós usaremos o conectivo de implicação (→), que já falamos um pouco no começo da explicação sobre tabelas de verdades. Mas antes, vamos  construir os possíveis valores de   verdade da implicação.

                Se p é verdadeiro e q é verdadeiro, p→q é verdadeiro

                Se p é verdadeiro e q é falso, p→q é falso

                Se p é falso e q é verdadeiro, p→q é verdadeiro

                Se p é falso e q  é falso, p→q é verdadeiro

       Agora que sabemos os valores de verdade da  implicação, vamos a análise do argumento. Primeiramente vamos transformar o argumento em símbolos. Logo após construiremos os quatro valores de verdade de p e q. Essa construção é necessária em todo argumento. Vamos então a primeira premissa (p → q), construiremos os possíveis valores da implicação, que já mostramos acima. Depois construiremos os valores de verdade da proposição atômica q, ou seja, de sua negação; basta apenas inverter os valores de q, negando-os.A proposição >p constitui nossa segunda premissa. Por último, construiremos  os valores de verdade da proposição atômica p, basta apenas copiá-lo da primeira coluna.

                  Só há combustão se houver oxigênio                   p → q

                  Na lua não há oxigênio                                         >q

                  Portanto, na lua não há combustão                      .º. >p

Valores Premissa Premissa Conclusão  
   p      q      p → q      >q          >p
   V     V        V       F           F
   V      F        F       V           F
   F      V        V       F           V
   F     F        V       V           V     *

       Esse argumento, como podemos notar, é válido. Não há nenhuma linha da tabela que torne as premissas verdadeiras e a conclusão falsa. Ao contrário percebemos na última linha que a conclusão decorre necessariamente das premissas, tanto a premissa como a conclusão são verdadeiras.

       Até o momento nós construímos os valores de verdade da conjunção e da implicação. Faltam apenas a tabela da disjunção e da equivalência. Vamos construir a tabela de verdades da disjunção para construirmos um argumento.

         Se p é verdadeiro e q é verdadeiro, p v q é verdadeiro

         Se p é verdadeiro e q é falso, p v q é verdadeiro

         Se p é falso e q é verdadeiro, p v q é verdadeiro

        Se p é falso e q  é falso, p v q é falso
 
     Agora que construímos os valores de verdade da disjunção, temos que analisar um argumento. A primeira coisa é transformar o argumento em símbolos. Logo após construiremos os quatro valores de verdade de p e q. Uma vez feito isso, começaremos analisar o argumento. Ao lado dos valores de verdade de p e q colocamos a tabela da disjunção, que mostramos acima. Ela constitui nossa primeira premissa. A segunda premissa é a negação da proposição atômica q, basta apenas pegarmos os valores de verdade de q e negarmos. A conclusão, por sua vez, é p, basta apenas copiarmos os valores de verdade de p. Assim temos a tabela de verdade do argumento.      

        João é careca ou João tem cabelos                  p v q

        João não tem cabelos                                      >q  

        Portanto, João é careca                                  .º.  p

Valores Premissa Premissa Conclusão
  p      q         p v q       >q        p
  V     V           V        F        V
  V      F           V        V        V *
  F      V           V        F        F
  F       F           F        V        F      

       O argumento que analisamos é válido, uma vez que não há nenhuma linha da tabela de verdades que torne as premissas verdadeiras e a conclusão falsa.  Ao contrário, na segunda linha temos todas as premissas verdadeiras, assim como sua conclusão verdadeira. O argumento é, portanto, válido.      

       Vamos construir nossa última tabela de verdades, que é o de equivalência. Assim teremos uma tabela completa com todos os valores de verdade dos quatro conectivos: conjunção, implicação, disjunção e equivalência. A construção dessa única tabela com todos os valores de verdade dos conectivos é importante, pois é com ela que analisaremos qualquer argumento que use proposições atômicas e moleculares.

                Se p é verdadeiro e q é verdadeiro, p ↔ q é verdadeiro

               Se p é verdadeiro e q é falso, p ↔ q é falso

               Se p é falso e q é verdadeiro, p ↔ q é falso

               Se p é falso e q  é falso, p ↔ q é verdadeiro

       Agora vamos construir um argumento que use  equivalência. Primeiramente devemos transformar o argumento em símbolos.

              João casa-se com Maria se, e somente se, Maria casa-se com João

              João quer casar com Maria 

              Maria não se casa com João

              p ↔ q

              p

              .º. >q

       Uma vez que transformamos o argumento em símbolos, vamos começar montando a tabela de verdades. A primeira coisa a fazer é construir os valores de verdade de p e q. Logo após devemos construir a tabela de equivalência, que já mostramos acima, basta apenas copiar seus valores. Ela constitui nossa primeira premissa. A segunda premissa é a proposição atômica p, basta apenas copiar seus valores da primeira fileira das tabelas de verdade. A conclusão, por sua vez, é a negação da proposição atômica q, basta apenar negar q na segunda fileira das tabelas de verdade. Com isso a tabela construída ficaria assim:

Valores premissa premissa     conclusão
   p       q      p↔ q      p          >q
   V       V        V      V           F   *
   V        F        F      V           V
   F        V        F      F           F
   F        F        V      F           V

        É fácil perceber que este argumento é inválido. Como já dissemos um argumento é inválido quando é possível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Nota-se que a primeira linha da tabela de verdades torna as premissas verdadeiras e a conclusão falsa. O argumento é, portanto, inválido.

        Além do que dissemos até aqui pode haver a relação de equivalência entre proposições. Uma proposição é equivalente a outra se elas sempre têm o mesmo valor de verdade: quando uma é verdadeira, a outra também é verdadeira; quando uma é falsa, a outra também é falsa. Por exemplo, as proposições (p q) é equivalente a (q p), nós representamos    [(p q) (q p)]. Vamos montar uma tabela de verdades para mostrar que (pàq) é equivalente a >(p ^ >q).  Ou seja, vamos mostrar que ambas as proposições possuem os mesmos valores de verdade. Nós representamos:   [(pàq)      >(p ^ >q)].

       Primeiro vamos fazer a tabela de verdade de p à q

       

               p                  q          p-> q
               V                  V            V
               V                  F            F
               F                  V            V
               F                  F            V

      Observe os valores de verdade de  p-> q, são eles: V, F, V, V. Mostraremos que eles são equivalentes a >(p ^ >q).

p    q        p        >q     (p ^ >q)     > (p ^ q)
V   V        V         F          F          V
V   F        V         V          V          F 
F   V        F         F          F          V
F    F        F         V          F          V

       Primeiro estabelecemos os valores de p e q, depois copiamos os valores de p novamente e  negamos q. Através de p e >q nós fizemos a tabela de valores de p ^ >q. Finalmente nós a negamos. Com isso encontramos os valores de > (p ^ >q) que são: V, F, V, F

        Agora que construímos nossa última tabela de verdade de equivalência, temos a tabela de verdades completa. Ela torna-se importante para o estudante, pois é com ela que podemos analisar qualquer argumento que use proposições atômicas e moleculares. Vamos montá-la abaixo.

p       q      p ^ q   p -> q    p v q     p↔ q  
V       V         V    V      V       V
V       F         F    F      V       F
F       V         F    V      V       F
F       F         F    V      F       V

Publicado em:  on Novembro 25, 2007 at 5:03 pm Deixe um comentário

Bibliografia

CHÂTELET, F. História da Filosofia; In: A teoria e a observação na filosofia das ciências do positivismo lógico. Por Jacques Bouveresse. Rio de Janeiro: Zahar. 1974, p.71-118  

COPI. Irving.  Introdução à lógica; Trad. Álvaro Cabral; 2º edição; São Paulo: Mestre Jou,  1978 

KUNH, T. As estruturas das revoluções científicas, 1991 

WITTGENTEIN, L. Tratado lógico-Filosófico. Lisboa: Fundação Calouste Gulberkian, 1995. 

WITTGENSTEIN, L. Investigações Filosóficas. Lisboa: Fundação Calouste Gulberkian, 1995. 

SALMON, Wesley C. Lógica; Trad.Leonidas H e Octanny S da mota. Rio de janeiro: Zahar, 1969

Publicado em:  on at 4:41 pm Deixe um comentário